As voltas que a vida dá

Hoje comemoro 2 dias sem fumar (desde 9 de outubro de 2024) e também o mesmo tempo de uma nova maneira de viver que nada tem a ver com a primeira causa da comemoração. Explicando melhor: o afastamento do vício foi consequência do fato que causou a mudança mais significativa da minha vida, a descoberta da minha insignificância em relação a tudo e a todos que me rodeiam.

Desde o dia em que nascemos a vida nos acontece naturalmente da forma que a conhecemos, a princípio sem preocupações, apenas descobertas e adaptações simples que passam a fazer parte de nossas rotinas. A evolução do corpo e da mente, a influência dos hormônios, a formação da personalidade, fazem parte de nosso desenvolvimento sem que nos imponhamos – pelo menos para a maioria de nós – comportamentos regrados que visem à mais alta qualidade de vida em nosso futuro. Às vezes, dizemos que as pessoas que vivem assim são exageradas porque controlam sua alimentação, praticam exercícios diários e mantêm hábitos saudáveis que, em tese, garantirão saúde e longevidade.

Luís Eduardo Magalhães, conhecido político baiano, fazia caminhadas diárias e morreu de infarto fulminante aos 43 anos. Não atendendo a um conselho médico de fazer um exame que radiografa o coração, sofreu um infarto. Já na UTI do hospital, o exame foi feito. Tinha quatro lesões na coronária direita e seis no lado esquerdo, e não uma lesão nas coronárias como era suspeitado.

Não é o único caso de morte prematura de pessoas aparentemente saudáveis – e dadas aos bons hábitos – que conheço.

O problema, porém, não é a morte. Esta virá para todos cedo ou tarde e será definitiva. Seus impactos, como o sofrimento e o luto, serão passageiros, e só para os que ficarem. Penosa é a vida quando limitada.

Sempre enalteci, em mim, algumas características que eu considerava como qualidades: a precocidade, a autodidática, o ecletismo, as habilidades manuais, a capacidade cognitiva, a independência; gabava-me de conhecer e poder executar determinadas tarefas tradicionalmente atribuídas às mulheres (no século em que nasci), como lavar, passar, limpar, costurar, cozinhar, além de dominar as “artes” tipicamente masculinas, lidando com ferramentas manuais, elétricas e eletrônicas para construir, consertar, reformar, instalar, montar e desmontar quase tudo. E assim era a minha vida.

Se tudo vai bem, está tudo bem!

Mas, eis que, de repente, não mais que de repente, o inesperado nos faz uma surpresa. Um passo em falso, uma queda, a fratura do fêmur, uma cirurgia, e…plim!

Me tornei dependente!

Dádiva e castigo

Sou extremamente grato a Deus por não ter sofrido nada mais grave e poder contar com um bom convênio. Por outro lado, constrangido, estou aprendendo a viver de maneira totalmente inédita para mim, sendo dependente de outras pessoas. Há um longo período para que eu me acostume com essa nova condição, pois a recuperação total pode variar de 4 a 12 meses.

Humildade

Quando a gente se vê dependente, é preciso jogar fora todo tipo de orgulho, e até mesmo todo o pudor que nos acompanha desde o início da vida. Permitir que outras pessoas nos deem banho e nos ajudem a usar o banheiro é um grande desafio, e convém que seja vencido com bom humor.

Fora isso, as coisas que podíamos fazer antes, mesmo que contrariados – como cozinhar, no meu caso –, podem se tornar proibitivas em vista das limitações do corpo. Hoje, para me locomover (sempre em curtas distâncias), preciso do andador ou das muletas. Não dá para me equilibrar diante do fogão, varrer o chão, pendurar e recolher as roupas do varal, e nem mesmo dirigir. Foi uma volta que a vida deu, fazendo com que eu passasse a ser tratado novamente como um bebê, porém, com consciência, discernimento e muitas memórias que provocam saudades de tempos recentes.

Reconhecimento

São choques como esse que nos acordam para a necessidade de agradecer a cada minuto por tudo que somos, possuímos e podemos fazer. E assim, valorizando tudo isso, nos dediquemos com todo o afinco para que continue sendo pelo menos assim para sempre.