Verso Reverso

Você chegou pra mim pedindo um verso,
Querendo conhecer meus pensamentos,
Tentando descobrir meu universo,
Talvez pra preencher alguns momentos…

E eu, pra te atender, fiz o que pude.
Pensei no que dizer e, com cuidado,
Sem ser como a criança que se ilude,
Passei a rascunhar este recado:

— Descubra o que há em mim, por simples tato,
Por toque, pelo gosto ou pelo olfato,
Jamais pelo que ouve ou o que vê.

Pois tudo que eu pensar a seu respeito
Será porque me acho no direito
De ter, sentir, querer e amar você!

Fome e Sede

Em meio às feridas e cicatrizes,
rasgavam nas bocas dos infelizes
sorrisos roubados com desespero.
Os olhos molhados soltavam gotas,
calando a saudade de imagens rotas,
que ali conservavam com tanto esmero.

Os corpos largados junto à parede,
às vezes gemendo de fome e sede,
os olhos caídos, sem força ou fé,
buscavam imagens em meio à treva,
imagens que vão-se, que o tempo leva,
que nunca, jamais, se porão de pé…

Quem dera não fossem tão informados,
tão vivos, perfeitos, tão bem amados!
Talvez não tivessem que lamentar-se…
Mas amam-se os tolos e inteligentes,
à margem dos corpos, além das mentes,
com fome de sexo e sede de amar-se!

Sonho

Permita que eu te diga em verso e prosa
o que, de uma maneira desastrosa,
te dizem outros homens pela rua,
que querem te tocar, sair contigo
levar-te a um passeio “sem perigo”
enquanto seu desejo é ver-te nua!

Que belo é o corpo esguio e sinuoso
que tu, nesse balanço tão gostoso,
desfilas, concentrando as atenções.
Balançam as pupilas te seguindo,
levando um sonho à mente, doce e lindo,
de estar a sós contigo e teus botões:

Soltar cada botão devagarinho,
curtir teu corpo até levar-te ao ninho,
deixar a mente solta nas alturas…
Voltar à realidade do momento,
deixando-se aplicar o pensamento,
levando-te à melhor das aventuras…

Assim, sem condenar, sem gestos feios,
começo a te buscar pelos teus seios,
com beijos tão suaves quanto a brisa.
Num lento relaxar, enfim te soltas
(depois de dar a boca tantas voltas
naquela superfície branca e lisa).

E, sem te machucar, misturo os dentes,
quebrando a maciez dos lábios quentes,
mordendo-te nos picos das montanhas!
E desço, devagar, pelas colinas,
correndo no caminho que me ensinas,
sentindo o calafrio em tuas entranhas!

Calado, eu uso e abuso dos sentidos,
ouvindo-te pedir entre gemidos
meu corpo junto ao teu, deixando os medos.
O gosto do prazer domina o senso,
deixando teu perfume mais intenso
das pontas delicadas dos meus dedos.

Tu vais me acompanhando, pouco a pouco,
perdendo a tua razão, e eu, quase louco,
procuro no teu corpo uma acolhida.
Evitas, mas eu sei o quanto gostas
e espero, percorrendo as tuas costas
com beijos que me servem de medidas.

Contorno as tuas curvas, te acompanho…
E outra vez, medindo o teu tamanho,
percorro a superfície dominada.
É como se alcançasses as estrelas,
porém, sem ter que olhar pra poder vê-las…
Com elas permaneces lá, deitada.

E quando tu percebes que te falto,
te atiras sobre mim, quase num salto,
buscando meu calor e aconchego.
Então, começa a haver de tua parte
maior dedicação naquela arte
de amar e compreender o meu apego.

Misturam-se os teus braços nos meus braços,
estreitam-se de vez os nossos laços
e as bocas se procuram ofegantes;
sussuram, repetindo seus convites
(talvez pra nos mostrar que estamos quites),
se dão como jamais se deram antes!

À luz de um abajur que o quarto enfeita,
meu corpo sobre o teu, enfim, se deita,
e turvam-se as visões, teu corpo espuma.
O brilho dos teus olhos, qual lanternas,
clareia o movimento das tuas pernas,
que afastam-se pra mim, uma por uma…

E assim, bem devagar, num leve embalo,
teu corpo faz de mim o teu cavalo
e alcança o apogeu da cavalgada.
Galopas com fervor dentro da noite,
usando teus cabelos como açoite
até alcançar a linha de chegada!

Balanças como um barco sobre as ondas,
gingando sobre as partes mais redondas
em meio à mais terrível tempestade.
E o mar – que ali sou eu – mais se alucina,
te mostra ser capaz do que imagina,
tombando-te, sem dó nem piedade!

Parece que venci, porém, me iludo,
ainda que pareça que fiz tudo…
És tu a chama atroz que me incendeia!
O fogo vence a água e a faz cativa,
e assume a condição de chama viva,
fazendo o mar, por fim, morrer na areia…

Espero, então, vencer o meu cansaço,
e outra vez meu sonho satisfaço
de um modo que se torne mais bonito.
Procuro prolongar cada segundo
do instante em que tu explodes, lá no fundo,
bebendo do meu ser, calando um grito…

Agora me conheces, te conheço,
e deixo mais de mim no teu avesso,
enquanto, devagar, eu te abandono.
Nós dois a comungar, num só suspiro,
na guerra onde se deu último tiro,
deixamo-nos olhar antes do sono.

Imagens irreais, que não existem,
mas pairam sobre mim, e ali insistem
que venham a tornar-se verdadeiras…
Quem sabe se este sonho que alimento
não tenha que passar, qual passa o vento,
e assim, como eu te quero, tu me queiras?

Tão logo o Sol entrar pela janela
e eu me imaginar de volta à cela
que a Vida me condena em sua prisão,
rirei mais uma vez do que me imponho,
e nada mais além daquele sonho
terei pra alimentar essa ilusão.