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O dia em que quebrei meu fêmur

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Para falar sobre a minha primeira experiência como paciente de temporada em hospital é preciso recorrer ao vocabulário médico para explicar o motivo que me levou a isso. Em palavras simples, seria uma fratura de fêmur, entretanto, os médicos a identificam como fratura pertrocantérica. A região transtrocanteriana, compreendida pelo trocanter maior e trocanter menor, é a área de transição entre o colo e diáfise femoral, caracterizada por denso trabeculado ósseo, responsável pela transmissão de carga ao membro inferior. Ou seja, tudo isso para explicar que, para minha sorte, não foi uma fratura do colo do fêmur, como mostra a imagem ao lado (clique nela para ampliá-la).

Perguntas mais comuns

O fêmur quebrou e causou a queda ou a queda causou a fratura do osso?
Segundo o especialista, o tipo de fratura sofrida indica que ela foi causada pela queda, e não por fragilidade óssea, embora seja recomendável fazer, assim que possível, uma densitometria óssea para avaliar as condições dos meus ossos.
Como isso aconteceu?
Fui até o portão para ver se o carro do ovo era o que eu esperava. Não era. Então, decidi voltar. Eu estava no segundo degrau do lance de 3 degraus de acesso à casa, e acho que pensei em me posicionar mais adequadamente, mas ao recuar o pé, imaginando que me apoiaria no primeiro degrau, pisei diretamente na calçada, perdendo o equilíbrio.
O que aconteceu depois?
Foi uma queda estranha, inusitada para mim. Rolei até o meio fio, ralei o cotovelo direito e bati a cabeça (de leve), não conseguindo mais me levantar. A dor era muito intensa. Fui auxiliado por dois amigos que me viram estendido no chão (o que foi condenado pelo pessoal do SAMU) e pedi que me levassem ao banheiro, onde esperei por socorro.
À direita, um exemplo das instalações do Hospital Carlos Chagas. O apartamento é bem maior.

 

Recolhimento e primeira fase da internação

A ambulância do SAMU veio de Mogi das Cruzes, e até que veio rápido, considerando o tempo médio que as ambulâncias costumam levar para atender vítimas em Santa Isabel. Eram três socorristas, sendo uma moça e dois rapazes. Fui colocado numa cadeira de rodas e carregado pela escada até a rua. Depois, me transferiram para uma espécie de maca; na verdade, um pranchão de madeira dura sobre a maca, onde fui – digamos – imobilizado. Bem imobilizado. Então, seguimos para a UPA – Unidade de Pronto Atendimento.

Aqui cabe um parêntesis para fazer um relato do sufoco de quem precisa desse tipo de assistência em Santa Isabel. A primeira pergunta que nos vem à mente é “onde foram parar aquelas ambulâncias novas que a cidade ganhou?” Sem resposta, você agradece por ter sido socorrido a tempo e tenta se convencer de que por dentro todas as ambulâncias são iguais. Mas quando o veículo começa a circular pela cidade, não dá para contar o número de buracos, valetas e obstáculos que nos fazem sentir como uma pedra sendo batida num liquidificador com as lâminas cegas. Gente, ninguém pensa em quem precisa desse serviço?

Pois bem, chegamos à UPA. Interessante é que, mesmo conhecendo o trajeto percorrido, não dá para acompanhar o que está passando do lado de fora, é como se a memória se desligasse enquanto o corpo se concentra na dor. Nem as instalações da UPA parecem conhecidas, tudo é como um mistério para quem só consegue enxergar o teto dos ambientes, até que, de repente, a gente se descobre cercado de atendentes e/ou enfermeiras, num enorme salão cheio de leitos. E como nas séries de TV, ouve-se a contagem “1…2…3!”, e você ocupa um deles.

Não me lembro muito do que aconteceu depois. Houve uma certa integração social com outro paciente que aguardava sozinho desde aquela manhã por uma cirurgia de hérnia. Passei a noite ali, imaginando que no dia seguinte (10) o convênio médico seria acionado e as coisas melhorariam.

A segunda fase da internação

De fato, depois das 16h30 fui transferido para o Hospital Carlos Chagas, em Guarulhos.

Inaugurado em 1962, o Carlos Chagas é um hospital geral localizado no centro de Guarulhos, região metropolitana de São Paulo. Com uma área de 22 mil m² distribuídos entre pronto-socorro, ala de internação com apartamentos privativos e semi privativos, UTI adulto, infantil e neonatal, medicina diagnóstica e maternidade, a unidade é reconhecida por oferecer desde consultas clínicas e maternidade até procedimentos de alta complexidade.

Em 2014, o Hospital passou a fazer parte do Grupo Amil e atende ao convênio Saúde Caixa.

Diagnóstico e decisão

Diagnóstico: fratura do fêmur. A princípio, uma notícia apavorante, porém, não para os médicos (a figura ao lado ilustra o que entendi que seria feito para corrigi-la). Três pequenos cortes, uma cirurgia simples e rápida, mas com uma recuperação lenta.

Minha preocupação era com a posição do pé direito, totalmente caído (uma característica que ajuda a identificar a fratura do fêmur).

A espera foi angustiante, a cirurgia, inicialmente planejada para o dia 11, foi adiada pela primeira vez porque o material não havia sido entregue no hospital a tempo; depois, por prioridade de outro caso, mais urgente, adiada novamente para o dia 12. Entretanto, no fim daquele sábado, o especialista, Dr. Ricardo, apresentou mil pedidos de desculpas, garantindo que às 7h00 do dia seguinte tudo seria resolvido. E assim foi.

Logo após o procedimento, na sala de observação, alguém me perguntou “E aí, como é que foi a cirurgia?“. Minha resposta foi: “Não vi…”.

O período pós-operatório

Fiquei internado por mais dois dias, até receber alta na terça-feira, 15 de outubro, por volta de dez horas da manhã. Desde o domingo já havia caminhado com a ajuda de um andador e tomado meus banhos sozinho, surpreendendo as expectativas.

Como eu disse, foi minha primeira vivência como “paciente de temporada” num hospital, a primeira cirurgia considerada de grande porte, a dor mais intensa que já senti, a primeira vez com a anestesia raquidiana, e tudo isso sem fumar um cigarro sequer desde o dia da queda. Pode parecer pouco, mas eu não conseguiria vencer o vício se o pretexto não fosse tão convincente.

Se de um lado o cenário se mostra positivo, de outro, as coisas não são tão maravilhosas, a começar do cheiro que o corpo exala por causa dos medicamentos – é o que suponho. A região afetada fica bastante sensível, obviamente, e as dores se refletem na panturrilha, no joelho, na coxa e no quadril. Espirrar é um sacrifício. Dói, e dói muito. Movimentar a perna idem, mas é necessário. A recuperação total pode levar de 4 a 12 meses.

O leito hospitalar facilita bastante tanto para o paciente quanto para quem o assiste, graças ao controle eletrônico da altura e das inclinações, proporcionando a movimentação de suas partes de maneira rápida e sem esforço físico, o que favorece sobremaneira uma reação em caso de necessidade repentina de urinar, por exemplo, pois – no caso dos homens – a melhor posição é sentado e com o “papagaio” entre as pernas. Qualquer alternativa criativa certamente acabará em banho…

Informações posteriores

A curiosidade nos leva a buscar informações sobre o que passamos; queremos conhecer os riscos, as chances de restauração total, o que devemos evitar, que hábitos devemos mudar, etc. Mas quando fazemos isso, chegamos a nos arrepender. Vejam o que encontrei numa publicação do Dr. Daniel Rebolledo:

    1. A fratura de fêmur tem um significado especial no idoso pois nenhuma fratura aumenta o risco de morte no idoso como uma fratura do fêmur, principalmente na região do quadril. Um a cada 4 idosos, em média, morre dentro de 1 ano após uma fratura de fêmur.
    2. O risco de morte é especialmente alto nos primeiros 3 meses após a cirurgia, sendo 5x maior na mulher e 8x maior no homem quando comparado com a população normal. Este risco diminui ao longo do tempo, mas nunca volta ao normal.
    3. As causas de morte mais comum são pneumonia e outros problemas respiratórios, infecção (sepse), problemas cardíacos, ou seja, o paciente não morre da fratura propriamente dita, mas sim de todas as complicações clínicas que acontecem decorrentes dela.

A fisioterapia é importante, o repouso não é aconselhável. As complicações decorrem justamente da imobilidade do paciente. Desta forma, é fundamental realizar uma cirurgia que alivie a dor e permita a rápida movimentação e marcha do paciente.

É o que estou tentando fazer. Só não me chamem para bater uma bolinha, jogar uma pelada ou fazer uma corrida. Pelo menos por enquanto!

Agradecimentos 1

Agradeço à contribuição de amigos e parentes, em especial ao meu cunhado André Mineiro e sua esposa Neide, que com o apoio do LIONS CLUB conseguiram a cessão temporária da cadeira de banho e do andador, tão necessários durante a fase de recuperação. Sou grato a todos que se solidarizaram, oraram e torceram pelo sucesso da cirurgia e se empenham para tornar a recuperação agradável.

Agradecimentos 2

Meus mais efusivos agradecimentos às equipes do SAMU e da UPA de Santa Isabel pelos primeiros cuidados e transporte, e minha eterna gratidão à equipe do Hospital Carlos Chagas, aos Doutores Ricardoe Anderson, por sua competência e simpatia, a todos os atendentes, serventes, auxiliares, e enfermeiras por sua dedicação e paciência para comigo.

Atualização – março 2025

Depois de seis sessões de fisioterapia em caráter particular, consegui dar continuidade ao tratamento na Santa Casa, mas por pouco tempo. Embora tenha sido aprovada uma série de dez sessões, devido ao recesso de Natal e sabe-se-lá-mais-o-quê (Covid-19, segundo a fisioterapeuta), minha ficha foi cancelada. Precisei voltar ao médico do convênio para conseguir nova solicitação e, por sorte, fui “encaixado” no SUS, onde cumpri a série.

Voltei ao médico para nova avaliação, ainda usando uma muleta, e houve nova solicitação de fisioterapia, desta vez de vinte sessões. O objetivo era dispensar a muleta, agora usada como bengala. Recusei a sugestão do fisioterapeuta, de usar uma bengala de quatro apoios, por considerá-la “coisa de velho“, propondo-me a usar a muleta de forma invertida, e já no dia 15 de março passei a dispensá-la na maior parte do tempo.

Hoje, 25 de março, iniciei nova série de fisioterapia com uma avaliação. Tenho planos de frequentar um academia a partir do dia 1º de abril. E não é mentira.

Tenho feito exercícios em casa, quase todos os dias. Comprei um conjunto de elásticos, bolas suíças, uma mini cama elástica, e ganhei um TRX (alças de suspensão), e isso tem me ajudado a modificar não apenas a situação dos músculos, mas a aparência de maneira geral. Agora quero ir além, afastar de vez o risco de sarcopenia e de Alzheimer.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom, Mario. Assim ficamos sabendo o que você realmente passou.
    Boa sorte e um breve restabelecimento.

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