De vez em quando, algumas pessoas me perguntam o que fiz para abandonar o tabagismo. Afinal, depois de 58 anos entregue ao vício, eu mesmo ainda reluto em acreditar que consegui, e sem sofrimento algum. Pneumologistas e psiquiatras sugerem o uso de bupropiona – medicamento indicado para tratar o transtorno depressivo maior (TDM) – como auxiliar no tratamento de combate ao vício, entretanto, isso não funcionou comigo, e por muitos anos não admiti que seria capaz. Tentei seguir as orientações fornecidas pelo telefone 136, as fornecidas pelo Dr. Drauzio Varella; comprei um programa que garantia pôr fim no meu vício com ajuda de uma “planta misteriosa que só cresce do outro lado do mundo“; quase gastei dinheiro com adesivos, cheguei a carregar palitos de salsão para substituí-los pelos cigarros, enfim, tentei de várias formas e nada foi eficaz.
Foi só depois de parar de fumar que percebi que o meu desejo surgia por distração (hábito de fumar) ou em momentos de tensão, o que me fez concluir que a origem desse desejo vinha mais dos impulsos mentais do que por dependência química. Na verdade, o hábito é mais forte que o desejo. Tanto é assim que é comum que tabagistas, sem perceber, acendam mais de um cigarro enquanto fumam. Também há o hábito de levar a mão ao bolso onde costumava ficar a carteira de cigarros.
A preocupação com tudo que incomoda os não fumantes simplesmente não existe para os viciados. O mau hálito, o mau cheiro nas roupas, a fumaça, o ambiente impregnado de nicotina (móveis e paredes amarelados), o prejuízo físico de objetos queimados por descuido (estofados, roupas de cama e pessoais), enfim, não há empatia que considere os que estão próximos. E para muitos nem mesmo as leis são respeitadas. A Lei Antifumo proíbe o consumo de tabaco e derivados sob coberturas como em entradas de estabelecimentos, estacionamentos, pontos de ônibus, sugerindo o afastamento de pelo menos cinco metros além dessas áreas.
Outro absurdo é o descaso dos fumantes para com o ambiente. Jogar pontas de cigarros pelas janelas de condomínios, ou mesmo nas vias públicas e estradas é uma clara demonstração de desprezo pelo que é feito para o bem estar de todos, além de oferecer risco de incêndio em determinados casos.
A Lei 12.546/2011 é clara: “Fica proibido fumar cigarrilhas, charutos, cachimbos, narguilés e outros produtos em locais de uso coletivo, públicos ou privados, como hall e corredores de condomínio, restaurantes e clubes, mesmo que o ambiente esteja parcialmente fechado por uma parede, divisória, teto ou até toldo”.
“Os não-fumantes são chatos. Reclamam de tudo.” – disse uma senhora que tem dificuldade de permanecer numa sala de cinema durante uma sessão.
Os viciados (vale para todos os tipos) se acham os donos da razão; são, em sua própria opinião, os únicos certos. O resto da Humanidade está errado.
Autoanálise do meu perfil de fumante
Sempre procurei respeitar os ambientes que frequentei, evitando fumar onde pudesse incomodar outras pessoas. Fumar à mesa após as refeições, jamais. Todavia, apesar de consciente do mau hálito, voltava a dirigir depois de uma pausa para um cigarro. Minha esposa, também fumante, sempre sugeria que eu “soltasse toda a fumaça” antes de entrar no carro. Mas não fumava no carro quando havia outras pessoas comigo. Muitas vezes tive vergonha de abraçar amigos e parentes.
Exageros
Por outro lado, há um certo exagero por parte de alguns não fumantes, como a alegação de estarem incomodados com o cheiro do cigarro quando os fumantes estão a dezenas de metros de distância, ou quando controlam o intervalo entre um cigarro e outro. A preocupação com a saúde alheia pode até ser verdadeira, mas a “fiscalização” exagerada também incomoda.
Estímulos para interromper o vício
O maior estímulo para alguém abandonar o tabagismo é o risco de morte decorrente de uma doença grave atribuída aos componentes químicos dos cigarros, como o câncer, ou, antes dele, o enfisema pulmonar, também conhecido como Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), que destrói os alvéolos.

Embora eu tenha sido diagnosticado como portador de DPOC, não foi isso me levou a parar de fumar, mas, sim, o fato de ter sido internado devido à fratura do fêmur. Ou melhor, a internação foi um pretexto, já que é proibido fumar num hospital. O verdadeiro motivo foi a notícia de que o governo havia criado o “imposto do pecado“, visando ao aumento de arrecadação oriunda da comercialização de cigarros, bebidas alcoólicas, combustíveis fósseis e até apostas, numa ação camuflada de preocupação com a saúde e com o meio ambiente. Apesar de estar prevista a vigência da Lei Complementar (PLP) 68/2024 para 2026, os preços dos cigarros sofreram aumento imediato de pelo menos 20%. Exemplo: LM box = de R$ 10,00 para R$ 12,00 o maço. Me recuso terminantemente a contribuir com mais impostos para sustentar os luxos do “casal real” da Brasuela.
O confinamento me fez pensar. Multiplicando o valor atual de um maço de cigarros pelo consumo médio de 1,2 maço por dia ao longo dos aproximadamente 21.170 dias de duração do hábito de fumar, queimei cerca de R$ 304.848,00, na melhor das hipóteses. Esse dinheiro poderia ter sido aplicado em tantas coisas úteis, e eu o usei mal. Muito mal. E nem sabia que o tabagismo pode prejudicar até o esperma! – Leia o artigo publicado pela revista Veja.
A ideia de sacrificar repetidamente alguns prazeres e meu bem estar por uma satisfação passageira – e cara em vários sentidos –, começou, finalmente, a me incomodar. Percebi que comprar roupas novas, por exemplo, há muito eu deixara de fazer, e quando um idoso passa a usar apenas roupas velhas, o quadro é deprimente. A consequência é o isolamento e a baixa autoestima.
A fase de recuperação impôs a necessidade de fisioterapia, isto é, exercícios e disciplina. Passei por um fisioterapeuta particular, pelo atendimento da Santa Casa (que durou pouco) e pelo SUS, na UBS I de Santa Isabel, surpreendentemente o melhor e mais bem equipado. Paralelamente, comecei a fazer exercícios em casa, com elásticos, simulador de caminhada, bolas suíças e alças de suspensão (TRX). Mais tarde, por empolgação, uma barra e duas anilhas passaram a incorporar os recursos, e isso começou a modificar todo meu corpo. Por fim, adquiri uma bicicleta para passeios diários (e locomoção), contribuindo para o metabolismo cardiovascular, queima de gordura e fortalecimento das pernas. E assim, eu que nunca fui fã de academias, passei a praticar todos os dias.
Estabeleci a meta de alcançar um reflexo agradável (diante do espelho) até o fim deste ano. Desde a decisão de parar de fumar não sofri de abstinência, não fiquei nervoso, não critiquei fumantes, não me importei com quem fuma ao meu lado; apenas percebo que estão jogando a vida fora. E viver é bom demais! Viver bem na “envelhescência” é uma dádiva pela qual agradeço a cada minuto.
Acredite, parar de fumar não é tão difícil quanto parece, basta que a vontade de fazê-lo seja mais forte que o conformismo de ser um(a) perdedor(a).
Se você fuma, pare agora! Você vai se amar muito mais por isso!




